A revisão é parte determinante do processo de tradução, sendo essencial para a entrega de um projeto de qualidade ao cliente. Da revisão de conteúdos à revisão linguística, este é um processo minucioso e moroso, que exige bastante do revisor. Neste artigo, fazemos-lhe um resumo com os principais tópicos do processo de revisão e as características fundamentais de um revisor. Se pondera enveredar por esta profissão, este texto é para si!

 

1. Características de um revisor

Chegou o momento de autoanálise. Se quer começar uma carreira como revisor terá de ver em si características como: foco nos pormenores; curiosidade para pesquisar e adquirir novos conhecimentos sobre a língua de chegada (no caso de uma revisão unilingue); atenção a erros comuns da língua; saber “desligar o seu eu” de forma a respeitar a voz do autor do texto em textos de carácter técnico; e ter conhecimento da área a rever. Está pronto/a para iniciar esta jornada?

O ato de rever texto pode ser bastante solitário e isolado, em grande parte porque requer a total concentração de quem pratica esta bela arte. Prepare-se para longos momentos sem contacto com o mundo exterior, em que terá de fugir de qualquer fonte de distração, digital ou presencial.

De seguida, há que refletir sobre qual a sua medida de intervenção enquanto revisor. É, provavelmente, uma das questões mais importantes nesta área. Será que o revisor deve apenas rever os erros ou deve inserir a “sua voz” no texto? Será que deve limitar-se a corrigir erros graves e óbvios, que prejudicariam a qualidade geral? Para responder a estas questões, urge fazer a distinção do âmbito da revisão.

Se estivermos a falar em revisão literária, a voz do revisor nunca se deve sobrepor à voz do autor do texto. Na revisão técnica, as indicações de revisão são semelhantes, excetuando-se as situações em que existem normas e indicações do cliente para a tradução. Nesses casos, os requisitos do cliente sobrepõem-se a qualquer outra regra: se o cliente pretende que determinada palavra seja traduzida por outra específica, mesmo que fuja à voz do autor ou à escolha feita pelo tradutor, o revisor deve colocá-la.

 

2. Conhecimento geral e temático/revisão de conteúdos

Em revisão técnica, o revisor só conseguirá produzir um trabalho excelente se tiver conhecimento sobre o tema em questão. Assim, aconselha-se que um revisor tenha um vasto conhecimento sobre vários temas, não se vá dar o caso de uma referência, por exemplo, ao rio Tejo, aparecer algures como um mar ou uma lagoa.

É nesta altura que o revisor se torna um ser social: ninguém tem de saber tudo, por isso é muito útil ter uma boa “carteira de amigos”, especialistas em diversas áreas.

 

3. Instrumentos de revisão

Chegamos agora ao momento mais prático de uma revisão linguística. O revisor linguístico deve saber, em primeiro lugar, quais os instrumentos de que dispõe para esclarecer e fundamentar as suas dúvidas. No final desta secção, apresentamos uma lista não exaustiva de fontes, quer em formato digital como impresso.

Estamos num mundo cada vez mais digitalizado, em que se recorre à Internet para esclarecer toda e qualquer dúvida. Se tiver este pensamento como base, só recorrerá aos meios digitais. Contudo, estes meios estão cada vez mais pejados de erros devido ao mau uso que fazemos diariamente da língua.

A língua é algo mutável e em constante atualização. No entanto, esta plasticidade e a consciência da mesma tem dado origem a inúmeras más utilizações e corruptelas com a justificação de que a língua evolui. Já se tem ouvido que é necessário “fazer um upgrade” a algo. Deixámos de ter, em português, a palavra “atualização”?

Se experimentar fazer uma pesquisa na Internet, de certeza que encontrará dados que comprovem a utilização de “upgrade”, mas terá sempre de ter em atenção à fonte que utiliza. Inúmeros meios “online” são “alimentados” pelo uso corrente da língua e, ao basear-se neles, estará a passar possíveis erros linguísticos para o seu projeto – uma destruição da língua portuguesa que pode ser evitada se consultar fontes fidedignas.

Ter atenção às fontes utilizadas é, portanto, essencial. Em caso de dúvida, existem excelentes ofertas impressas disponíveis: dicionários generalistas (os chamados dicionários de língua); dicionários especializados (como dicionários médicos, de direito, entre outros); prontuários ortográficos; gramáticas; guias de estilo, entre muitas outras. Tratam-se de meios que passam por rigorosos processos de avaliação.

De seguida, apresento algumas fontes, físicas e digitais, que considero credíveis.

  • Dicionários online (apenas para português):
  1. Infopedia
  2. Priberam
  3. Houaiss
  • Ciberdúvidas
  • Dicionários:
  1. Dicionários de língua Porto Editora
  2. Dicionários Houaiss
  3. Dicionários de verbos
  • Gramáticas:
  1. Nova Gramática do Português Contemporâneo, Celso Cunha & Lindley Cintra
  2. Gramática da Língua Portuguesa, Inês Duarte, Isabel Hub Faria e M. Helena Mira Mateus
  3. Gramática do Português, Fundação Calouste Gulbenkian
  • Outras fontes:
  1. Prontuários ortográficos
  2. Guias de estilo

 

4. Erros comuns da língua

Quem de nós nunca utilizou os pleonasmos não intencionais “há X anos atrás”, e “entrou para dentro da sala”, ou o comparativo “melhor preparado” ou até mesmo a errada pluralização “os olhos azuis-claros daquele rapaz”?

Estes são alguns exemplos de como não utilizar a língua portuguesa. Para evitar utilizações erradas, inspiradas pelo mau uso da língua que ouvimos ou lemos com frequência, o revisor deve: estar atento a todos os pormenores; ter um ouvido e um olhar apurado; investigar sempre que surgir uma dúvida.

 

5. Revisão ortográfica e sintática

Chegamos ao momento de falar das revisões comuns e, por ser um ponto sobejamente conhecido e tratado pelo revisor, seremos breves. Falamos dos erros ortográficos (facilmente detetados com um corretor ortográfico) e das revisões sintáticas (muitas vezes algo semelhante a um inferno de vírgulas e pontos finais). São estes os pontos de maior atenção de um revisor antes de qualquer entrega. A maioria dos profissionais utiliza o famoso corretor ortográfico e gramatical F7, mas devemos estar atentos a erros não assinalados por este nosso amigo como, por exemplo, a distinção entre a 1.ª pessoal do plural do presente do indicativo e a 1.ª pessoa do plural do pretérito imperfeito do indicativo – um com acento e outro sem acento. E por falar em acentos, não se esqueça de “assento” e “acento”.

 

6. Viúvas, órfãos e mancha gráfica

Por fim, falo da verificação das translineações (por forma a não deixar órfãos e viúvas), da mancha gráfica da página (tamanho e tipo de letra, espaçamento interlinear, duplos espaçamentos, redondos e finos, caixas altas e caixas baixas, versaletes), das transparências (por forma a verificar se o texto impresso numa página transparece na sua contra página), dos números de página, do índice remissivo e, caso as haja, de imagens. São passos fundamentais para a revisão em prova, tão comum no meio literário.

 

O processo de revisão é crucial para uma tradução de qualidade. Devido ao nível de dedicação necessário, aconselhamos esta profissão a pessoas perfecionistas, atentas ao detalhe, com enorme capacidade de concentração e verdadeiramente apaixonadas pela língua.

Boas revisões! 🙂

 

Acrescentaria algum tópico essencial para um revisor ou para o processo de revisão? Partilhe connosco a sua experiência e conhecimento!